Ludicidade africana e afro-brasileira

ludicidade africanaA ludicidade, como enfocamos no projeto LAAB, parte da compreensão de Cipriano Carlos Luckesi, para o qual a ludicidade é antes de tudo uma vivência ou ainda uma experiência. Como tal, não ocorre no vazio, precisa de conteúdos, recursos e contextos que nos coloquem em situação lúdica.

Nestes termos, falar de ludicidade africana e afro-brasileira é remeter a vivência lúdica alimentada pelos conteúdos, valores, histórias, ritmos, enfim, pela cultura negra, em suas mais diferentes manifestações. Sejam os fragmentos de cultura dos antigos povos africanos, como seus mancalas e o senet, sejam as expressões musicais contemporâneas, como o Hip Hop, que para Ferreira (2004), representa processos criativos de ressignificação da diáspora. Sejam as alegrias dos dançantes da roda de jongo, no Rio de Janeiro, sejam os giros e batuques do Samba de Cassete em Cametá, na Amazônia paraense. Tudo isso compõe o rico e vasto campo do que podemos denominar de ludicidade africana e afro-brasileira.Ludicidade Africana

Assim, não é possível delimitar a ludicidade negra a um conjunto fechado de brinquedos, folguedos e brincadeiras. Em verdade, nem é possível falar de uma ludicidade exclusivamente africana ou afro-brasileira, em virtude dos processos de trocas e misturas culturais, muitas vezes violentos, impostos pela colonização da África e pela lógica da diáspora.

Mesmo neste contexto de difícil precisão histórica, a ludicidade africana e afro-brasileira se afirma como um elemento importante aos estudos culturais porque evidencia a capacidade de resistência, de criação e de recriação dos negros, no Brasil e no mundo. Capacidade de no contexto perverso da escravidão, da colonização, da diáspora, da miséria e da violência fazer nascer a beleza, o sorriso e um canto de esperança. Não significa negar a dor, mas recria-la pela sensibilidade artística e expressa-la mais doce, mas não menos forte.

É essa força de recriação de seu mundo que vemos na criança africana que hoje transforma lixo em brinquedo, que usa a terra como tabuleiro, que faz sua bola de panos velhos e sai a jogar futebol. É essa força criativa que vemos nas canções afro-paraenses da cidade de Cametá que tornam poesia o cotidiano pauperizado, quando cantam "mamãe meu namorado já chegou, não tem café com açúcar para dar pro meu amor" "amarra a rede e manda ele deitar, não tem café com açúcar deixa a barriga roncar". É dor transformada em vivencia lúdica, a fé transformada em sorriso. Tudo isso compõe o universo do que aqui denominamos de ludicidade africana e afro-brasileira.

Dar acesso aos atuais e futuros professores a esse conjunto de elementos que convida a vivência lúdica da cultura africana e afro-brasileira é fundamental para diminuir os preconceitos e equívocos acerca da questão racial e efetivar os objetivos antidiscriminatórios da atual Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), Nº 9394/96.

Todavia, apesar de ser uma estratégia promissora para a formação de professores e para a criação de um cotidiano escolar mais plural, a ludicidade africana e afro-brasileira não se constitui em tema de fácil acesso, em virtude, como explica Santos (2010), da escassez de pesquisas sobre a questão. Muito da produção nacional sobre o tema ludicidade versa sobre aspectos relativos à herança lúdica europeia, demonstrando um dos prováveis efeitos da marginalização da cultura negra, ou seja, seu demérito como problema de pesquisa.

Para Kishimoto (1999), a dificuldade de estudar a contribuição africana para o patrimônio lúdico nacional se explica pelo contexto da escravidão, que transformou a herança lúdica africana, chegando a incluir elementos racistas em jogos e versos que se popularizaram no Brasil e são citados como jogos de origem afro-brasileira.

Exemplos desse tipo de herança lúdica afro-brasileira ligada ao contexto da escravidão são os jogos "Chicotinho Queimado" e "Barra manteiga na fuça da nega". A utilização dessas brincadeiras sem uma reflexão de seu significado termina por contradizer as orientações legais acerca de uma pedagogia antirracista. É preciso polemizar a construção histórica desses jogos e inclusive a questão semântica de seus versos, descontruindo os apelidos que historicamente inferiorizam os negros no Brasil. Para além dessas brincadeiras, que teatralizam a dominação da criança negra, há toda uma gama de manifestações culturais e lúdicas criadas pelos próprios negros brasileiros que representam, conforme Ferreira (2004), a busca constante de renovação da cultura e a não passividade dos Afro-brasileiros frente às condições de exclusão e de miserabilidade. Exemplo dessa capacidade criativa é a Capoeira, o Samba e o Carimbó.

Nesse contexto, pensar a contribuição da ludicidade para a educação das relações etnicorraciais é enfrentar o desafio de pesquisar e selecionar jogos e brincadeiras africanas e afro-brasileiras que permitam valorizar a diferença e não afirmar a brutalidade que marcou a chegada dos povos negros no Brasil.

Por: Débora Alfaia da Cunha                                                                                                                               

© LAAB 2011 - Ludicidade Africana e Afro-brasileira - UFPA - Todos os Direitos Reservados.

Desenvolvido por: Cláudio Freitas